Entre a Fantasia e o Real: Sustentando o Fogo sem Temer as Cinzas
Como manter a paixão acesa em uma relação longa? Usando a falta do outro como combustível e vivendo o Kṣaṇa (instante) radicalmente.
O Paradoxo do Desejo
A imagem que desencadeou essa reflexão foi uma citação lacaniana:
"A Fantasia protege o sujeito do Real."
Em Psicanálise, o Real é aquilo que não tem sentido, o abismo do outro, o fracasso inevitável do encontro pleno. A Fantasia é a estrutura que permite ao sujeito continuar desejando sem ser destruído pela impossibilidade.
Mas isso me levou a uma pergunta pessoal e urgente:
Como manter a paixão acesa em uma relação de longo prazo (32 e 37 anos) sem que a fantasia evapore e o Real mate o desejo?
A Engenharia do Desejo
Em minha relação (não-monogâmica), desenvolvemos inconscientemente uma engenharia do desejo:
- Usamos a falta e a distância (o Real — a ausência, a falha) como combustível.
- Usamos a Fantasia (a imaginação, a tensão) para explodir essa ausência em paixão no reencontro.
- Somos "viciados" nessa intensidade.
Mas havia um medo rondando: E se essa estrutura desmoronar? E se o fogo apagar?
O Estudo "Ao Acaso" dos Yoga Sūtras
Num momento de inquietação, abri os Yoga Sūtras 3.50-3.58 — a seção sobre Kṣaṇa (o momento/instante atômico) e a percepção da impermanência.
Patañjali ensina:
Pelo domínio sobre o Kṣaṇa (o instante), o yogi compreende a natureza do tempo e da mudança. Percebe que tudo está em fluxo constante.
A ficha caiu: O medo do futuro é a prisão. A cura está no agora radical.
A Virada: Kṣaṇa Como Antídoto
Se eu vivo o agora com totalidade, o futuro não importa.
Se a forma da relação mudar amanhã, o conteúdo vivido hoje é eterno — não no sentido de duração, mas no sentido de realidade experimentada.
A impermanência não é uma ameaça. Ela é a condição da intensidade.
A Lógica Tântrica
O Tantra (não o Yoga Clássico, mas a visão de absorção plena) diz:
"Viva cada instante como se fosse o último. Não porque ele vai acabar, mas porque ELE É a totalidade."
Se eu e minha parceira nos encontramos hoje, e estamos completamente presentes — sem pensamentos de "e se acabar?", sem barganha, sem medo — então esse encontro É a eternidade.
O medo da perda só existe quando você projeta o agora no futuro. Mas o futuro é uma fantasia.
A Síntese: Fantasia, Real e o Instante
A Fantasia continua necessária. Ela dá sabor, cria tensão, alimenta o erótico.
O Real continua inescapável. Haverá falhas, ausências, limites.
Mas agora há um terceiro elemento: Kṣaṇa.
Viver o instante com tal intensidade que a pergunta "vai durar?" deixa de fazer sentido.
Reflexão para o Caminho
Kṣaṇa é a celebração da impermanência. Não é resignação. É viver tão plenamente que a duração se torna irrelevante.
Hoje aprendi que o medo do fim é curado pela presença total no começo de cada momento.
Que sustentar o fogo não exige garantias de permanência. Exige coragem de queimar agora.
Se amanhã virar cinzas, que sejam cinzas de um fogo verdadeiro.
Próximo passo: Praticar Kṣaṇa Samyama (meditação no instante presente) como método diário. Não para controlar o tempo, mas para dissolver a ansiedade do futuro.