A Raiva de Ser Livre: Quando o Ego Descobre que Não É o Mestre
Li sobre a libertação final e, em vez de paz, senti raiva. Descobri que meu ego estava usando a 'busca pela liberdade' como uma muleta para não se entregar.
O Soco da Gītā
Hoje a leitura da Gītā me deu um soco.
O texto dizia claramente: a mente deve renunciar à sua própria liberdade para servir ao Si-mesmo (Ātman).
Minha reação? Raiva pura.
Não foi uma raiva explosiva, mas um incômodo profundo, uma resistência visceral. Percebi que, durante todo esse tempo, minha disciplina espiritual estava baseada numa fantasia: a fantasia de que eu (o ego) seria o herói da iluminação.
Meu ego queria ser o protagonista da história. Ele queria ser o mestre, não o servo.
A Armadilha do Objeto a (Lacan na Mandala)
Em Psicanálise, Lacan fala do Objeto a — aquele objeto de desejo inalcançável que mantém o sujeito em movimento, sempre buscando, nunca satisfeito.
Meu "Objeto a" era a própria libertação.
Eu estava usando a busca espiritual como uma muleta. O ego estava fingindo que queria liberdade, mas na verdade ele queria controle disfarçado de espiritualidade.
A verdade dolorosa: eu não queria me dissolver no Todo. Eu queria que o Todo me validasse.
A Virada: Educar, Não Matar
A raiva me ensinou algo precioso: não vou matar o ego. Isso é impossível e desnecessário.
Vou promovê-lo.
O ego não precisa ser Deus. Ele precisa ser o Gerente da Encarnação — aquele que cuida do corpo, paga as contas, organiza a vida prática. Mas ele não é o CEO. Ele é o gerente de operações.
A diretoria é do Ātman (o Si-mesmo).
Essa distinção me libertou. O corpo ficou solto. A mente respirou. O ego parou de lutar contra a sua própria natureza.
A Pergunta que Fica
Se o ego deixou de ser o obstáculo, o que em mim está preso ainda?
Essa pergunta me leva para o Kāraṇa Śarīra (Corpo Causal) — o porão das impressões profundas, dos Saṁskāras que ainda não foram vistos.
A raiva foi só a porta de entrada. O verdadeiro trabalho começa agora.
Reflexão para o Caminho
Ahamkāra não é o inimigo. Ele é um funcionário mal treinado. Quando você o educa, ele se torna seu melhor aliado.
Hoje aprendi que a raiva espiritual é um sintoma de que o ego está descobrindo que não é Deus. E isso é bom.
É o começo da verdadeira rendição.
Próximo passo: Mapear o Corpo Causal. Descobrir quais Vāsanās (tendências latentes) ainda comandam minhas reações automáticas.